
Ao longo desta semana que passou, eu e mais 8 pessoas dos Missionários Combonianos estivémos na Comunidade Vida e Paz, em Lisboa. Fizémos sandes, lavámos, esfregámos, ajudámos na cozinha, animámos o espaço aberto que recebe sem-abrigo durante o dia, dando-lhes a oportunidade de saírem da rua através de programas de recuperação, andámos à noite a distribuir alimentos e a falar com as pessoas, visitámos as quintas de recuperação onde se faz um trabalho extraordinário e demos apoio espiritual. Tivémos sempre a ajuda da direcção, de outros voluntários e, o mais importante, de pessoas que recuperaram e que hoje têm casa, um trabalho, uma família. E, claro, o apoio de Cristo e Maria.
A realidade dos sem-abrigo é muito complexa. Cada caso é um caso. Há quem esteja na rua por que não quer mudar de vida e ter responsabilidades, mas a maioria está lá por que a vida entrou na completa ruína. Encontrámos imensos doentes mentais, muitos alcóolicos, prostitutas, toxicodependentes, imigrantes, desempregados, abandonados... O nosso objectivo não era apenas dar comida e roupa. Era também falar com as pessoas e levá-las para a recuperação. É muito fácil criticarmos e dizermos que eles estão na rua apenas por que o querem. Há situações em que é verdade. A família, os amigos e as instituições já os tentaram ajudar vezes sem conta e eles não aceitam. Mas, a maioria está lá por que perdeu toda a dignidade. É verdade que cometeram asneiras, mas também é verdade que nem sempre foram apoiados com aquela paciência de Cristo: esperar, bater à porta durante dias, meses ou anos. Sem desistir, apesar de se saber que, em muitos casos, a resposta há-de ser sempre “Não”.
Mas, é isso que devemos fazer. Bater, rasgar horizontes ao amor, levá-los a lutarem pela sua própria vida e tirar-lhes o vazio provocado pelo materialismo, auto-suficiência, individualismo, que, infelizmente, vem cada vez mais do exemplo da família. Não é fácil, mas é possível. Encontrei muitas pessoas que recuperaram e que são o grande exemplo de como é possível vencer, mesmo quando estamos no fundo do poço.
Deixo-vos as histórias (bem reais, infelizmente) que mais me marcaram pela positiva ou pela negativa:
- Não consigo esquecer as pessoas que saltaram da rua, do alcóol, da droga, da prostituição e que são um exemplo de como vale a pena bater e bater à porta. Um deles viveu 20 anos na droga... Agora, ninguém o reconhece. Está cheio de vida.
- A necessidade aflitiva de serem perdoados e de se perdoarem a eles próprios. Esta é a razão que leva muitos a continuarem no caminho de “escravidão”, como me dizia um toxicodependente no ex- Casal Ventoso.
- A quantidade de pessoas que estão na rua. Na estação do Oriente, é impressionante o número de pessoas que lá dormem.
- A solidão de um senhor que não é sem-abrigo, mas que foi ter connosco para desabafar.
- A importância de um simples aperto de mão a um sem-abrigo que está sujo, a um doente de sida (não ficamos infectados por dar um aperto de mão e esquecemo-nos tanto disso).
- O senhor que diz que é professor de História e está há anos na rua à espera de um barco que o leve.
- Do senhor que só vê a guerra colonial à sua frente e sente orgulho de ter “bombardeado Moçambique, sem deixar lá ninguém”.
- Dos imigrantes que vivem na rua, mas têm trabalho. Estão lá, porque o patrão não paga. Enquanto não arranjarem outro emprego para conseguirem a legalização, lá continuam...
- Das pessoas que quase caíam para cima de nós por causa do alcóol, mas que se sentiam bem em ver que os escutávamos, não lhes dando apenas uma sandes.
- Das crianças que vieram pedir leite e pão.
- Do senhor que nos queria dar um euro que ganhou a arrumar carros, porque se o ajudávamos, também nos tinha de ajudar. Não foi fácil convencê-lo de que não precisava de o fazer, mas lá conseguimos.
- Dos senhores que no dia a seguir foram pedir ajuda. Um deles está no hospital. Teve uma hemorragia interna. Está nos Cuidados Especiais. Rezemos por ele.
- A sede de Deus de tantas pessoas. A alegria de se sentirem acolhidas na missa.
Enfim... O texto já vai longo. O desafio que vos deixo é este: olhemos para a realidade, conheçamo-la e, com Cristo, rasguemos horizontes ao Amor. Principalmente ao Amor por aqueles que erram muito e, que, muitas vezes, só precisam de ser aceites e perdoados. Jesus fez e faz o mesmo e pede-nos para derrubar as barreiras que impedem o Amor de salvar e curar muitas pessoas. E, já agora, como cristãos, rezemos por todos os sem-abrigo.










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Deixo-vos com um pedido do meu amigo do
"Desejo a confiança. Espero de ti obras de misericórdia, que devem nascer do teu amor por Mim. Importa que ao próximo manifestes misericórdia sempre e em qualquer lugar. Não te podes furtar a isto, tentando arranjar desculpas ou justificares-te.






















