segunda-feira, janeiro 19, 2026

 

Odiar um idoso doente? É possível…

 


Pode haver alguém que não tenha compaixão por um idoso com pouca mobilidade, que precisa da ajuda do neto para se equilibrar, apenas por ser muçulmano e imigrante? Sim, há quem consiga chegar ao ponto de não sentir qualquer amor por esta pessoa, que é tão ser humano como qualquer um de nós.

Assisti a uma cena de ódio horrível, ontem, nas mesas de voto. Um homem demonstrou o maior desprezo por este idoso. “Mas agora os estrangeiros têm prioridade?” O neto é português e este idoso deve viver em Portugal há muitos anos, porque o seu português era impecável. Mas mesmo que não fosse, como podemos mostrar ódio e desprezo por um idoso combalido? 

É triste ver ao ponto que se chegou por causa da política. Há crianças a serem maltratadas nas escolas por terem determinada nacionalidade ou por serem muçulmanos – alguns nem sequer o são, mas são apelidados como tal por ignorância.

Mas somos seres humanos ou somos máquinas de ódio? Cada um pensa o que quiser em termos políticos, mas ninguém pode maltratar outro ser humano. Não podemos deixar o ódio vencer. Não se trata de ideologia política ou da (velha) guerra entre Esquerda e Direita. Trata-se de Direitos Humanos. 

Estou indignada, mas a resposta cristã a estas situações só pode ser uma: orar para que este homem deixe de ter um coração de pedra e não se deixe influenciar por discursos de ódio e de mentira. Vamos lá! Nem que seja uma simples oração, um Pai-Nosso. Esta é a melhor resposta ao ódio; é a resposta que Jesus nos ensinou na cruz. “Perdoai-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem!” (Lc 23, 34)


quarta-feira, janeiro 14, 2026

 

E se Deus não te quiser curar?



O leproso foi ter com Jesus e, prostrando-se aos Seus pés, disse: “Senhor, se quiseres podes curar-me.” (Lc 5, 12-16) Voltemos ao tempo de Jesus para perceber a coragem, a humildade e a fé do leproso. Naquele tempo, os leprosos eram excluídos da sociedade, ficando às portas das povoações. Ninguém os queria e ainda se acreditava que estavam doentes por serem pecadores.

Mas este homem, doente física e psicologicamente, ouviu falar de Jesus e, contra tudo e todos, atravessou as portas proibidas para ir pedir a sua cura. Sabe Deus o que teve de enfrentar até chegar aos pés de Jesus: medo de não conseguir, olhares de nojo, acusações… Mesmo assim, foi. Não desistiu. Manteve-se firme na sua fé.

Apesar de tanto sofrimento, teve a humildade de deixar Jesus escolher se o queria curar. Por coisas bem menores, exigimos a Deus este e o outro mundo e, se não conseguirmos o que queremos, apontamos o dedo a Deus…

Também, nós, temos lepra. Muitas lepras. Umas mais visíveis, outras menos. Até podemos estar cheios de lepra no nosso interior e para os outros parecemos imaculados… Nesses momentos precisamos fazer como o leproso: aceitar a doença, ir ter com Jesus (mesmo com muitas dificuldades), ser humildes e ter fé. 

Ser humilde é muito importante, porque há doenças que se vão manter ao longo da vida. São como o espinho na carne de Paulo. Três vezes pediu a Deus para o curar, mas viu sempre o seu pedido ser negado. Jesus foi claro: “Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza.” (2 Co 12, 9) 

Não é fácil ouvir isto de Deus. Preferimos que Ele nos cure, como fez com o leproso. Mas Ele sabe o que é melhor. A vida verdadeira é a Eterna, não é esta. Só Deus sabe se o nosso sofrimento vai ser mais proveitoso para salvar almas do que a nossa cura.

Como superar este “não”? Com muita oração, sobretudo nos momentos de queda e de desespero, e com a entrega diária das nossas dores. Apelo a todos para a importância da oração: muitos dos que sofrem horrores, só conseguem aguentar graças à oração de intercessão. Por isso mesmo não podemos orar apenas pelos nossos problemas, mas também pelos dos outros irmãos.

 

 

 

quarta-feira, janeiro 07, 2026

 

Jesus passa, mas não O chamamos

 


No Evangelho de hoje (Mc 6, 45-52), Jesus passa pelo barco dos discípulos. Estão apavorados, mas não conseguem vê-Lo no primeiro instante. O medo e a fé imatura impedem-nos de sentir confiança em Deus. É curioso, porque tinham acabado de ver Jesus a multiplicar os pães e os peixes. Como não conseguiram acreditar que Jesus os podia salvar?

É fácil para nós olharmos e apontarmos o dedo aos discípulos. Mas não fazemos nós também o mesmo? Quantas vezes já tivemos milagres e mesmo assim desesperamos? O barco da vida navega muitas vezes em alto mar, em plena tempestade. Há momentos muito duros e qualquer um – sem exceção – pode fazer o mesmo: desesperar, não pedir ajuda a Deus e deixá-Lo passar ao lado… Ou então vemo-Lo já muito tarde, restando-nos remediar a situação com a Sua graça.

Esta passagem da Bíblia também nos deve fazer refletir sobre a atitude de Jesus: Ele passa ao lado do barco, mas não faz nada. Só vai ter com os discípulos quando eles O veem e O chamam. Porquê? Jesus não nos força a nada. O verdadeiro amor é assim: não é impingido. O Amor não pode ser de outra forma. Jesus está sempre disponível, mas se não O quisermos…

Querer e amar Jesus não é algo que se consiga num clique. É preciso caminhar, ler e meditar a Palavra – com a ajuda de quem sabe – e orar sem cessar. Orar com palavras, no silêncio, na contemplação, na ação… É preciso treinar todos os dias e pedir-Lhe a graça da oração contínua. Oração pode ser um simples olhar para uma imagem ou um pensamento em Jesus. Pode ser uma simples palavra dita em silêncio, no meio da multidão. 

E nunca se pode parar. Mesmo que haja quedas, temos que nos levantar e voltar à oração de coração, “em espírito e verdade” (Jo 4, 24). Uma pessoa pode andar anos a fio no ginásio a praticar musculação, mas basta parar por pouco tempo e os músculos vão diminuir… Na vida espiritual é a mesma coisa. 

Entremos no ‘ginásio’ de Deus para que vejamos Jesus em todos os momentos da vida, quer sejam bons ou maus. Vamos ter mais força e Jesus vai ficar mais feliz!



quinta-feira, janeiro 01, 2026

 

A última cartada de Deus no deserto…

 


Há objetivos na vida que são tão preciosos aos olhos de Deus que Ele se recusa a dar-no-los à primeira. Sabendo como falhamos facilmente e como adoramos falsas sensações e metas, prefere atrair-nos ao deserto para nos falar ao coração. (Os 2, 16)

E isso pode levar anos… Veja-se o exemplo de José, vendido como escravo pelos irmãos e vítima de grande injustiça, que só após décadas conseguiu perceber qual era a sua missão. 

Ao longo desses anos, Deus pede-nos a humildade de aceitarmos ir com Ele ao deserto, onde muitas vezes vamos escutar apenas silêncio. Vamos orar, chorar e a resposta de Deus será … silêncio. A revolta vai instalar-se, a confusão vai ser cada vez maior, assim como o sentimento de injustiça, mas Deus continuará sem falar…

É aqui que se prova a maturidade da nossa fé. Diria mesmo que é neste deserto que Ele nos ajuda a perceber se estamos com Ele para O amar ou apenas para ter algo em troca.

Se não desistirmos, mesmo sem nada entender, eis o que acontece:

- Deus vai refazer-nos e vamos ver quais as feridas e as imperfeições que devem ser curadas. Será a hora de aceitar também que ainda continuamos com alguns ‘pecados de estimação’ apenas porque não temos vontade de nos desafazermos deles. São demasiado prazerosos…

- No deserto vamos aprender o que é orar. A oração não é apenas palavras e cânticos maravilhosos, mas também lágrimas e silêncio. Um silêncio que chega a doer até aos ossos…

- E, mais importante que tudo, vamos entender o Amor infinito que Deus tem por cada um de nós e como é Ele que deve ser o centro das nossas vidas. Por melhor que seja uma pessoa ou uma profissão, tudo passa. Apenas fica Deus. 


Durante a experiência do deserto pode acontecer que Ele fale e que nos dê sinais da Sua Vontade. Isso é percetível pela paz que se sente no coração e que pode até ser racionalmente estúpida. Nestes momentos, os sinais de Deus contradizem tudo o que vemos à nossa volta. Mas Ele insiste que é possível.

O tempo passa e, quando menos esperamos, Ele lança a Sua última cartada. E nesse momento, o deserto torna-se num oásis e aquilo que parecia impossível torna-se realidade. Porquê? Porque as grandes obras de Deus parecem sempre impossíveis e começam sempre aos pés da cruz. É desta forma que mostra a todos que a obra é Dele e que irá salvar muitos filhos…

 

 

 

 

quinta-feira, dezembro 18, 2025

 

Salvar vidas no silêncio

 


Às vezes, na vida passamos por grandes sustos. As coisas podem estar bem – até muito bem – e, de repente, tudo se desmorona. As certezas tornam-se incertezas, a alegria vira tristeza e angústia e ficamos sem chão.

Acredito que foi isto que sentiu José quando soube da gravidez de Maria (Cfr. Mt 1, 18-25). Se fosse outro homem, tê-la-ia difamado, não se importando com a sua morte por lapidação. As mulheres adúlteras (apenas elas) eram apedrejadas, em praça pública, até à morte.

Naquele momento, José não quis saber da sua dor, do sonho desfeito de quem achava que iria casar. Simplesmente, sendo um homem de Deus, protegeu-a da morte. Esta atitude acabou por lhe dar a graça de escutar o anjo de Deus a dizer-lhe para não ter medo, porque o fruto do ventre de Maria era obra do Espírito Santo. Não havia cometido adultério.

Reparem que José, mesmo na mágoa intensa, não deixou de escutar a voz de Deus… Nos momentos de dor, qual é a nossa tendência? Não escutamos ninguém, quanto mais Deus…

Podem dizer-me: isso é tudo muito bonito na teoria, mas na prática é diferente. Eu sei! Também sou fraca, resmungona nas dificuldades, também tenho a tendência de divulgar o que o outro me fez, para que a minha imagem não fique manchada…

Mas, nos últimos tempos, tenho aprendido (com algumas dores) que não é preciso gritar e ir a correr contar o que o outro fez. É melhor esperar como José. Ficar em silêncio e orar, mesmo que se chore e se tenha vontade de berrar.

Nesses momentos, dou por mim a olhar para o problema de forma muito fria e concreta, sem desculpas. E, perante a verdade do outro, consigo perceber melhor até que ponto o erro é cometido por traumas e por falta de cura interior. Não se trata de apagar o que aconteceu ou de achar que tudo se justifica, mas de reler os factos com base no amor e no perdão. 

Consigo sempre fazer isto? Não. Mas faço-o mais vezes, desde que olho para Jesus no Sacrário em silêncio ou quando oro apenas em silêncio no meu quarto. No silêncio, tal como José nos ensina, Deus enche-nos do Seu Espírito. Sem o Espírito Santo vamos cair muito mais vezes na tentação de abrir a boca, independentemente de o outro correr riscos de morrer física e ou psicologicamente…

Afinal, quem nunca pecou, que atire a primeira pedra… (Jo 8, 7)

 


quinta-feira, dezembro 11, 2025

 

A dor mostra a tua verdade, os teus sonhos!

 

Em silêncio, em frente a Jesus, agradeço-Lhe por o sofrimento ter um sentido na vida. Apenas com Jesus consigo perceber que o sofrimento não tem de ser em vão. E como isso me consola…Todas as dores são um ensinamento, uma oração… como Jesus nos mostrou na cruz. 

Um dos principais frutos do sofrimento é descobrir a nossa verdade interior. Afinal, quem sou eu? O que é muito importante na minha vida? O que mais desejo? O que me faz realmente feliz, mesmo no meio das tempestades?

A vida pode ser muito dura – e até injusta – e isso leva-nos a reprimir os nossos sonhos. Refiro-me aos sonhos que nos completam, ou seja, àqueles que Jesus preparou para cada um de nós. Por medo, vergonha, trauma, vamos (sobre)vivendo durante anos, sem lutar por aquilo que mais nos preenche como filhos muito amados de Deus. 

A dor e as experiências não curadas levam-nos a acreditar que não somos dignos de ser felizes e de alcançar aquilo que Deus sonhou para nós. O sofrimento é, muitas vezes, a única forma de Deus nos dizer: “Pára! Deixa-me sonhar em ti! Deixa-me fazer-te feliz!”

Nesse momento, por mais doloroso que seja, é preciso parar, escutar, orar e pedir aconselhamento. É preciso saber que passos teremos de dar para aceitarmos os sonhos de Deus, que são precisamente aqueles que Ele já colocou no nosso coração há muito, muito tempo.

Deixemos Deus sonhar em nós!


 

sexta-feira, dezembro 05, 2025

 

O que diz o olhar do Menino Jesus?

 


Eis a agitação habitual das vésperas do Natal… Onde estão os pensamentos de um cristão? Infelizmente, estão muitas vezes nas prendas e na comida da Ceia. Jesus fica para segundo, terceiro, quarto plano… Lá nos lembramos Dele quando olhamos para o presépio, mas não muito mais.

É preciso parar, orar, escutar e amar. No meio da agitação não podemos esquecer que o Natal é o nascimento de Jesus. O Menino embrulhado em panos, numa manjedoura, é Deus feito homem, que veio ao mundo para nos salvar. Não nos podemos distrair deste Seu Amor tão grande! Se o fizermos, estamos a ser ingratos.

Nestas semanas que antecedem a noite de Natal – Advento, na Igreja Católica -, deixemo-nos levar pelo olhar do Menino Jesus. O que Ele nos diz? O que temos de mudar na vida? A quem devemos estar mais atentos, porque está a sofrer em silêncio, apesar de sorrir todos os dias?

Olhemos para o Menino Jesus como se fosse a primeira vez. Peguemos na Palavra de Deus (a Bíblia) e voltemos a ler a passagem do seu nascimento. O que mais nos chama a atenção, tendo em conta o que estou a viver neste momento?