segunda-feira, setembro 21, 2026

 

A criança com véu na cabeça tem sentimentos

 


Passei por uma criança que olhou para mim e, como de costume, gosto de retribuir com um sorriso e um “olá”. Ela sorriu e perguntou-me: “Tens uma filha?” Respondi que não, mas sim um filho mais velho que ela. Esta menina tem 5 anos – quase 6 - e sentiu logo necessidade de acrescentar que só estava a usar véu (expressão usada por ela) naquele dia, porque os pais foram a um almoço. Era um véu azul, muito elegante e a cara estava bem visível.

Percebi nesse momento que baixou a cabeça, com olhos tristes. Fiz questão de lhe dizer que respeitava o véu e que ela era muito bonita. Sem me conhecer, contou-me que havia meninos que gozavam com ela e que para não ter problemas virava a cara e ficava calada.

Tudo aquilo me fez muita confusão. Era apenas um véu muito elegante que só lhe tapava os cabelos e que, segundo amigos muçulmanos, é usado por motivos religiosos. Não vou entrar em discussões sobre se se concorda ou não, pois nesse caso teríamos de ir buscar exemplos a outras religiões ou até a pessoas sem religião...

O que mais me faz confusão nisto tudo, sobretudo por estar habituada a conviver com o Islamismo desde pequena, é que as crianças estão a ser alvo de palavras maldosas por causa dos comentários de alguns pais em casa.

Pai ou mãe, até podes não aceitar ou concordar com o uso do véu ou com o Islamismo, mas existe algo que está acima de qualquer fé e crença: o respeito pelo nosso próximo. Em casa, cuidado com determinados comentários. Mesmo que digam que não concordam com a fé de alguém – e têm esse direito -, acrescentem sempre que temos de respeitar os outros. Devemos mostrar aos nossos filhos que, mesmo não gostando ou aceitando a maneira de estar do outro, ele é um ser humano, com sentimentos.

Num mundo polarizado, em que parece que temos de ser todos iguais, convém educar cada vez mais para a diferença. Sei que podem estar a pensar: e as burcas? Independentemente do que possas pensar sobre burcas, niqabs, etc., nunca se pode maltratar o outro. Essa máxima cristã é para todos: crentes de diferentes denominações, ateus e agnósticos. A mensagem é simples: filho (a), não gostas ou não concordas, mas deves tratar o outro como um ser humano.

Termino com um exemplo muito concreto: há uns anos, tive uma vizinha com burca. Como mulher, fez-me confusão? Sim, não vou ser hipócrita. Mas ao passar por ela, cumprimentava-a. Esta mulher viveu muito pouco tempo no país, mas cada vez que se aproximava de mim, percebia-se ao falar que sorria e que se sentia um ser humano tão válido quanto eu que não uso burca.

Para os cristãos que me leem, acham que Jesus não falaria com esta mulher? 

Sem comentários: