A criança com
véu na cabeça tem sentimentos
Passei por uma
criança que olhou para mim e, como de costume, gosto de retribuir com um
sorriso e um “olá”. Ela sorriu e perguntou-me: “Tens uma filha?” Respondi que não,
mas sim um filho mais velho que ela. Esta menina tem 5 anos – quase 6 - e sentiu
logo necessidade de acrescentar que só estava a usar véu (expressão usada por ela)
naquele dia, porque os pais foram a um almoço. Era um véu azul, muito elegante
e a cara estava bem visível.
Percebi nesse
momento que baixou a cabeça, com olhos tristes. Fiz questão de lhe dizer que respeitava
o véu e que ela era muito bonita. Sem me conhecer, contou-me que havia meninos que
gozavam com ela e que para não ter problemas virava a cara e ficava calada.
Tudo aquilo me
fez muita confusão. Era apenas um véu muito elegante que só lhe tapava os
cabelos e que, segundo amigos muçulmanos, é usado por motivos religiosos. Não
vou entrar em discussões sobre se se concorda ou não, pois nesse caso teríamos de
ir buscar exemplos a outras religiões ou até a pessoas sem religião...
O que mais me faz
confusão nisto tudo, sobretudo por estar habituada a conviver com o Islamismo
desde pequena, é que as crianças estão a ser alvo de palavras maldosas por
causa dos comentários de alguns pais em casa.
Pai ou mãe, até
podes não aceitar ou concordar com o uso do véu ou com o Islamismo, mas existe
algo que está acima de qualquer fé e crença: o respeito pelo nosso próximo. Em
casa, cuidado com determinados comentários. Mesmo que digam que não concordam com
a fé de alguém – e têm esse direito -, acrescentem sempre que temos de
respeitar os outros. Devemos mostrar aos nossos filhos que, mesmo não gostando ou
aceitando a maneira de estar do outro, ele é um ser humano, com sentimentos.
Num mundo
polarizado, em que parece que temos de ser todos iguais, convém educar cada vez
mais para a diferença. Sei que podem estar a pensar: e as burcas?
Independentemente do que possas pensar sobre burcas, niqabs, etc., nunca se
pode maltratar o outro. Essa máxima cristã é para todos: crentes de diferentes
denominações, ateus e agnósticos. A mensagem é simples: filho (a), não gostas
ou não concordas, mas deves tratar o outro como um ser humano.
Termino com um
exemplo muito concreto: há uns anos, tive uma vizinha com burca. Como mulher, fez-me
confusão? Sim, não vou ser hipócrita. Mas ao passar por ela, cumprimentava-a. Esta
mulher viveu muito pouco tempo no país, mas cada vez que se aproximava de mim, percebia-se
ao falar que sorria e que se sentia um ser humano tão válido quanto eu que não
uso burca.
Para os cristãos que me leem, acham que Jesus não falaria com esta mulher?







