O fim da mágoa
que corrói em silêncio…
Há dores que
persistem ao longo da vida, sobretudo se foram (e são) causadas por quem nos
deve amar e proteger desde crianças. Mas com muita oração de cura e libertação,
chega o dia em que as memórias começam a magoar menos e se começa a perceber
que aquela dor nos livrou do pior.
Violência,
abandono e desprezo são palavras muito duras para uma criança que as tem de
vivenciar e de as enfrentar durante anos... As emoções tornam-se um emaranhado
de nós ao longo dos anos e o que se viveu na infância vai toldando o nosso dia
a dia, mesmo que de forma inconsciente.
Mas, mesmo quem
mais nos fez mal, pode deixar alguma coisa boa. No meu caso, foi a fé. Parece
contraditório, eu sei. Mas é mesmo assim. A vida dupla de fé-violência
afastaram-me da Igreja durante uns anos, mas nunca de Jesus. Não pelo meu mérito,
mas porque Ele me fortalecia e auxiliava com a Sua mão direita e vitoriosa (Is 41, 10), mesmo
sem me aperceber.
Essa aproximação
e o encontro pessoal com Jesus e as orações de cura e libertação ajudaram-me a entender
algo que apaziguou o meu coração: tudo contribui para o bem daqueles que amam a
Deus (Rm 8,28).
Deus não quis o mal, mas a liberdade dos homens é um facto e o que Ele fez foi
ajudar-me a perceber que a violência, o abandono e o desprezo apenas me levaram
a ser mais cristã. Como? Dando real valor à família, entendendo melhor as dores
dos outros, estando mais dependente do Amor e da Misericórdia de Deus.
Hoje, após muitos
anos de dor, percebi que no meio da desgraça e da mágoa é possível, com Jesus,
perdoar do fundo do coração. Pode levar anos, implica muito sofrimento, mas a
Deus tudo é possível (Mt
19, 26). E não há mal nenhum que leve muitos anos. Não nos podemos
culpabilizar demais, pois a dor é muito grande e são situações traumáticas.
Perante a tua
mágoa – seja lá qual for -, não cruzes os braços. Entrega-a a Jesus, diz-lhe como
é difícil perdoar e como estás a sangrar por dentro, pede cura e libertação –
com a ajuda da Igreja – e tenta ver o que de bom te trouxe essa dor. No meu
caso, o que aconteceu foi livramento. Foi a possibilidade de aprender o perdão,
de entender melhor como é amar quem não presta e de não desistir de pedir para
que se arrependa pelo menos no último minuto e a oportunidade de viver longe de
quem me iria levar a ser uma pessoa snob, preconceituosa, farisaica.
Neste percurso
também aprendi que manter a oração pela pessoa não implica que ela te continue
a tratar mal. E não significa que a sua salvação está apenas dependente de ti,
levando-te a sentir culpa. A sua salvação depende das tuas orações, mas a
decisão final é dessa pessoa. Já fazes a tua parte, não ponhas mais um peso em cima
de ti. Afinal, uns semeiam, outros regam, outros colhem…(Jo 4, 37-38)
Desculpem o longo
testemunho – são poucos os que leem grandes textos -, mas é a forma que tenho
de agradecer a Deus a minha libertação: testemunhar para levar a esperança e o perdão
a quem mais sofre.
Ajuda-nos,
Jesus, a ver o lado bom da dor e cura-nos, liberta-nos, para que sejamos tuas
testemunhas! Ámen.







