quinta-feira, junho 18, 2026

 

As alergias e a oração dentro (mas fora) da igreja

 


Gosto muito de entrar numa igreja e ficar em silêncio. Eu olho para Jesus e Ele olha para mim. Mas naquele dia não pude ficar a escutar aquele silêncio maravilhoso da igreja, porque sendo muito antiga, tinha um cheiro intenso a humidade. Estava doente, com rinossinusite, e comecei a ficar aflita.

Saí e lá voltei ao barulho dos carros e à agitação própria de uma grande cidade. Contudo, dentro de mim, sentia uma vontade muito forte em continuar a oração em silêncio, como se estivesse na igreja. Não se tratava da oração que se faz em qualquer lugar. Sentia que devia continuar como se estivesse dentro da igreja. Pensei em aproveitar o jardim ali perto. Mais um problema: estavam a cortar a relva e sou alérgica a gramíneas. Tenho crises muito fortes de rinossinusite, podendo afetar a respiração, por isso tive de abandonar o local.

Caminhando, fui falando com Jesus, tentei escutá-Lo, olhei para os pormenores do que via à minha volta na ânsia de Ele me dizer qualquer coisa. No final, senti uma paz enorme e alegria. Não sei explicar bem, mas percebi que Jesus se utilizou das minhas alergias e do quadro agudo da rinossinusite para me levar a um encontro diferente com Ele.

Naquele momento, lembrei-me dos muitos irmãos e irmãs que vivem em regiões ou países onde a fé é proibida ou onde não se consegue ter uma igreja por perto. Como é que eles fazem para estar em silêncio em frente a Jesus? Não há sacrário, mas Deus permite-lhes que possam entrar no seu quarto – que pode ser a rua, o jardim, etc. – para estar com Ele como se estivessem em frente ao sacrário.

São momentos como este que reforçam algo muito importante: o Pai quer adoradores em espírito e verdade (Jo 4, 23-24). Quantas vezes multiplicamos palavras, ditas a correr, sem viver a oração? Até podemos não o fazer por mal, mas é preciso orar com mais calma, com mais verdade, sem se sentir aquele frenesim interior de se ter de fazer todas as novenas e ladainhas. Cada oração, mesmo que seja uma novena e uma ladainha, não deve ser a correr. Deve sair do coração, sempre em espírito e verdade.

Ensina-nos, Senhor, a orar! (Lc 11, 1)



 

terça-feira, junho 16, 2026

 

 

Amar implica sempre sentir “química”?

 


Amar como Jesus nos pede não implica sentir sempre “química”. Quem a sente pelo inimigo? Ninguém! No entanto, Jesus é bem claro quando pede para se amar e orar pelos que nos fazem mal (Mt 5, 38-47). Outro exemplo: sentimos “química” por todas as pessoas com quem convivemos ao longo da vida, mesmo que não nos façam mal? Não.

O Amor de que Jesus nos fala é, acima de tudo, uma decisão e um compromisso com a Sua Vontade, ou seja, devemos sempre optar pelo respeito e evitar a vingança. Diria que é também uma questão de lógica e de razão, alcançável por qualquer pessoa, independentemente de ter ou não fé.

Porquê? Porque se amarmos os inimigos e aqueles por quem não sentimos grande “química”, vamos viver muito mais em paz. Amar, neste caso concreto, significa negar a vingança ou optar pela indiferença, respeitar o outro como ser humano. Quantas guerras, brigas, chatices seriam evitadas…

Obviamente, é muito difícil pôr em prática o Amor de que Deus nos fala. Mas se Ele pediu, não é impossível. O segredo para o conseguir (mais vezes) é orar e vigiar sem cessar (1 Ts 5, 17-18), aceitar as nossas limitações, percebendo quando nos devemos retirar para que as coisas não corram mal… Vale mais o sentimento de que se perdeu uma batalha do que enfrentar o sofrimento que se segue após uma explosão de raiva.

Em suma, é preciso pedir a Deus a graça de não deixarmos a ira ir connosco para a cama (Ef 4, 26), acabando por se enraizar no nosso coração e na nossa mente. Imperfeitos como somos, é preciso treinar, treinar, treinar com o grande treinador da nossa Vida, a quem tudo é possível: Jesus Cristo.


Ajudai-nos, Jesus, pois sabes que é mais fácil deixar-nos levar pelas emoções do momento…



quarta-feira, junho 10, 2026

 

Perdoar o pai que tenta matar a mãe?



O pai tentou matar a mãe, mas não conseguiu porque um rapaz se pôs à frente. Acabou ele por morrer. Após este episódio trágico, a mulher virou-se para as drogas e a filha foi para uma instituição. Foi aí, e depois numa família adotiva, que conheceu Jesus.

A história é real e foi notícia durante a visita do Papa a Espanha. A rapariga confidenciou que, apesar da fé, sente dificuldade em perdoar o pai. A resposta do Papa foi extremamente humana e concreta. Não foi contra a Palavra de Deus, que pede para se perdoar sempre (Mt 18, 21-22), mas demonstrou compreensão e compaixão por uma dor tão grande.

E lembrou algo muito importante: o perdão, sobretudo nestes casos, só é possível com a graça de Deus (Mt 19, 26). E pode ser necessário pedir essa graça até ao último dia da nossa vida… O perdão cura, mas convenhamos que nestas situações é muito mais difícil, apesar de não ser impossível.

Meditemos nas palavras do Papa Leão XIV e olhemos para a resposta pensando naquilo que mais nos magoa…

“Precisamos de aprender a ver no perdão um poderoso remédio contra o mal que cura as nossas feridas interiores, como parte de um processo, de uma viagem. Acima de tudo, precisamos de invocar o perdão do Senhor; precisamos de continuar a pedir — talvez por toda a vida — que o Senhor expanda o espaço do amor dentro de nós, precisamente onde fomos magoados; que Ele nos ajude a reconciliar-nos connosco mesmos e com esta parte da nossa história marcada pelo sofrimento; [e] que Ele transforme lentamente o ressentimento em misericórdia e compaixão. É um longo percurso, um processo que exige muita paciência. E é preciso não desanimar: no perdão, avança-se com pequenos passos.”


 

segunda-feira, junho 01, 2026

 

As dores horríveis e a fé aos 6 anos



Com 6 anos tive de ser operada. Estive muito mal, com uma perfuração no intestino. As dores eram indescritíveis e os exames eram muito dolorosos. Escusado será dizer que a fraqueza de mal conseguir comer ainda piorava mais as coisas. Vivi o inferno. Nem tinha vontade de brincar.

Das coisas mais assustadoras que vivi, foi ficar sozinha à noite no hospital. Não permitiam que as mães ou os pais pernoitassem. Nesses momentos, o que mais me salvou foi a fé que a minha mãe me tinha transmitido. Hoje, entendo que era uma fé profunda, indizível. Sem ter frequentado a catequese, sem conhecer a Bíblia, Deus ungi-a para que transmitisse o amor de Deus aos seus filhos.

Nas noites terríveis de solidão, no escuro dos monstros que enchem a cabeça de uma criança de 6 anos, agarrava-me a Jesus.  Recordo-me como se fosse hoje da cara de duas enfermeiras: estava a fazer um tratamento muito doloroso e elas tentavam mimar-me. Eu dizia-lhes: “Só Deus sabe o que é melhor.” Elas olhavam muito admiradas e comovidas e calavam-se… O que lhes iria na cabeça naquele momento? Não sei… Se calhar, questionavam a sua própria fé. Ou então criticavam a minha mãe por me ensinar que Deus existe.

Hoje, olhando para esses momentos, penso como falar de Jesus não basta. É preciso que Ele transpareça dentro de nós, apesar das nossas imperfeições. A minha mãe não conhecia a Bíblia. Mas, apesar de vir de uma terra onde imperava o ateísmo e a superstição, ela conseguiu entender quem é Jesus.

Será que nós também entendemos quem Ele é? Será que O deixamos transparecer nos nossos gestos e palavras? Será que temos coragem de criança para falarmos Dele sem vergonha?


 

terça-feira, maio 19, 2026

 

A oração e a montanha-russa da vida

 


A oração é uma aprendizagem constante. A montanha-russa da vida - com muitas voltas, quedas e subidas repentinas - nem sempre nos permite verbalizar o que sentimos. Mesmo perante Deus, ficamos mudos. Às vezes, lá saem algumas palavras, mas muito poucas. A confusão na cabeça não nos permite ir mais longe neste diálogo com o Senhor.

O mais incrível desta experiência agridoce é ver como Jesus nos ama e nos aceita sem julgar. Olha para nós, respeita o silêncio, a confusão, a revolta…O Seu silêncio nestes momentos não pode ser visto como castigo ou indiferença. É simplesmente amor e cuidado. Ele aguarda com infinita paciência que O deixemos arrumar a nossa confusão, para conseguirmos desabafar e escutar a solução para o problema.

Isto não tem nada de mal. Somos humanos. Mas também é verdade que não podemos ficar infinitamente nesta posição, porque, mesmo inconscientemente, poderá tornar-se um esconderijo, uma desculpa para não enfrentarmos a realidade.

É preciso pedir o Espírito Santo para nos dar força para enfrentarmos as dores da vida e para aceitarmos a Vontade do Pai. Apenas encarando as coisas como são podemos avançar. A montanha-russa das emoções pode dever-se à nossa teimosia em seguir por um caminho que não é o melhor; pode ser expressão dos nossos defeitos e teimosias; pode ser Deus a pôr-nos à prova para sabermos se O amamos pelas coisas/desejos ou apenas por quem Ele é…

 


quarta-feira, maio 13, 2026

 

Abandonar o primeiro amor

 


Deus alerta-nos para algo muito importante em Ap 2, 1-7: podemos fazer muitas coisas por Ele, mas isso não significa que O amemos como no momento que O (re) descobrimos. “Conheço as tuas obras, as tuas fadigas e a tua constância (…) tens constância, sofreste por causa de mim e não perdeste a coragem. No entanto, tenho uma coisa contra ti: abandonaste o teu primitivo amor.”

E sabem qual é o principal sintoma deste abandono do primitivo amor? A oração torna-se secundária ou quase inexistente. As obras também são oração, se feitas em nome de Deus, mas é preciso que estejam sustentadas na oração silenciosa, contemplativa, na leitura orante da Palavra, nos sacramentos, na partilha entre irmãos.

O cansaço – ou exaustão – leva-nos a ver a oração como um peso e facilmente desistimos. Afinal, pensamos: faço tantas coisas por Deus! O primitivo amor torna-se facilmente ativismo puro e duro. Sem oração, sem o Espírito Santo, rapidamente começamos a fazer aquilo que nós achamos e não o que Deus quer.

Um exemplo: posso ser uma ótima oradora, mas se não tiver o Espírito Santo, os frutos não vão ser os mesmos.

É preciso parar e pensar se a nossa caminhada com Deus está nesta fase. Se sim, peçamos a Deus coragem para mudar. Tal como nos diz: “Lembra-te, pois, donde caíste, arrepende-te e torna a proceder como ao princípio.” Ap 2, 5

 

quarta-feira, abril 29, 2026

 

A oração turbulenta que me fez ver a verdade

 


Entro na Igreja à procura de silêncio. Mas não encontrei. Três senhoras fizeram questão de conversar sobre a vida. Senti-me incomodada, mas fiz um esforço para ignorar. Se calhar não têm catequese e conhecimento da Palavra e do que é ser Igreja - pensei eu. E isso não as faz menos filhas de Deus. Também erro todos os dias.

Mas, admito, aquele barulho pareciam facas a espetarem-se na minha cabeça. Como estava sedenta de silêncio… Apeteceu-me sair rapidamente, mas senti que Jesus me pedia para ficar mais um pouco. Assim o fiz.

E ainda bem que obedeci, pois naquela oração turbulenta percebi o que Jesus me estava a dizer: “É isto que Eu sinto quando não fazes silêncio. Quero ajudar-te, amar-te, pedir o Teu amor e tu não fazes silêncio…”

Muitas vezes, os outros são o nosso espelho, por isso:

“Não julgueis, para não serdes julgados; pois, conforme o juízo com que julgardes, assim sereis julgados; e, com a medida com que medirdes, assim sereis medidos. Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão, e não vês a trave que está na tua vista?” Mt 7, 1-3