terça-feira, janeiro 27, 2026

 

“Não faça como eu, menina! Não fique sozinha, é muito triste…”

 


Já passaram 20 anos (ou mais) desde que ouvi uma senhora, sem-abrigo, me dizer isto. Vivia na rua a pedir esmola e nos seus olhos apenas havia tristeza, angústia e arrependimento. Não sei o que terá acontecido na sua vida. O que a levou à rua? O que a levou a ficar sozinha? Decisões erradas, abandono? 

Não sei. Apenas sei que aquelas palavras me marcaram até hoje. Numa sociedade em que há muito se deixou de acreditar nas relações verdadeiras e no casamento, as palavras desta senhora deviam fazer-nos pensar. A modernidade diz-nos para ficarmos sozinhos, para irmos curtindo a vida… O problema é o depois… 

Com estas palavras não estou a criticar quem quer ficar sozinho por decisão própria. Há quem prefira assim e é feliz. Apenas quero alertar para aqueles casos em que se vai adiando o compromisso de uma vida a dois, em família, apesar de esse ser um desejo profundo. Porquê? Porque os anos vão passando e podemos perder oportunidades que não se voltam a repetir… Para nós, mulheres, há ainda outro problema: ter filhos.

Porquê ter-se tanto medo do compromisso? Por que razão temos de olhar para o casamento como algo pesado, enfadonho? Será um trauma do passado; uma família disfuncional, onde imperava a violência física e psicológica; o medo do futuro? Seja o que for, entreguemos a Deus. Deixemo-Lo curar-nos das feridas ou das más escolhas, para que a solidão e a angústia não se tornem companheiras diárias como aconteceu com aquela senhora…

 


 

segunda-feira, janeiro 19, 2026

 

Odiar um idoso doente? É possível…

 


Pode haver alguém que não tenha compaixão por um idoso com pouca mobilidade, que precisa da ajuda do neto para se equilibrar, apenas por ser muçulmano e imigrante? Sim, há quem consiga chegar ao ponto de não sentir qualquer amor por esta pessoa, que é tão ser humano como qualquer um de nós.

Assisti a uma cena de ódio horrível, ontem, nas mesas de voto. Um homem demonstrou o maior desprezo por este idoso. “Mas agora os estrangeiros têm prioridade?” O neto é português e este idoso deve viver em Portugal há muitos anos, porque o seu português era impecável. Mas mesmo que não fosse, como podemos mostrar ódio e desprezo por um idoso combalido? 

É triste ver ao ponto que se chegou por causa da política. Há crianças a serem maltratadas nas escolas por terem determinada nacionalidade ou por serem muçulmanos – alguns nem sequer o são, mas são apelidados como tal por ignorância.

Mas somos seres humanos ou somos máquinas de ódio? Cada um pensa o que quiser em termos políticos, mas ninguém pode maltratar outro ser humano. Não podemos deixar o ódio vencer. Não se trata de ideologia política ou da (velha) guerra entre Esquerda e Direita. Trata-se de Direitos Humanos. 

Estou indignada, mas a resposta cristã a estas situações só pode ser uma: orar para que este homem deixe de ter um coração de pedra e não se deixe influenciar por discursos de ódio e de mentira. Vamos lá! Nem que seja uma simples oração, um Pai-Nosso. Esta é a melhor resposta ao ódio; é a resposta que Jesus nos ensinou na cruz. “Perdoai-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem!” (Lc 23, 34)


quarta-feira, janeiro 14, 2026

 

E se Deus não te quiser curar?



O leproso foi ter com Jesus e, prostrando-se aos Seus pés, disse: “Senhor, se quiseres podes curar-me.” (Lc 5, 12-16) Voltemos ao tempo de Jesus para perceber a coragem, a humildade e a fé do leproso. Naquele tempo, os leprosos eram excluídos da sociedade, ficando às portas das povoações. Ninguém os queria e ainda se acreditava que estavam doentes por serem pecadores.

Mas este homem, doente física e psicologicamente, ouviu falar de Jesus e, contra tudo e todos, atravessou as portas proibidas para ir pedir a sua cura. Sabe Deus o que teve de enfrentar até chegar aos pés de Jesus: medo de não conseguir, olhares de nojo, acusações… Mesmo assim, foi. Não desistiu. Manteve-se firme na sua fé.

Apesar de tanto sofrimento, teve a humildade de deixar Jesus escolher se o queria curar. Por coisas bem menores, exigimos a Deus este e o outro mundo e, se não conseguirmos o que queremos, apontamos o dedo a Deus…

Também, nós, temos lepra. Muitas lepras. Umas mais visíveis, outras menos. Até podemos estar cheios de lepra no nosso interior e para os outros parecemos imaculados… Nesses momentos precisamos fazer como o leproso: aceitar a doença, ir ter com Jesus (mesmo com muitas dificuldades), ser humildes e ter fé. 

Ser humilde é muito importante, porque há doenças que se vão manter ao longo da vida. São como o espinho na carne de Paulo. Três vezes pediu a Deus para o curar, mas viu sempre o seu pedido ser negado. Jesus foi claro: “Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza.” (2 Co 12, 9) 

Não é fácil ouvir isto de Deus. Preferimos que Ele nos cure, como fez com o leproso. Mas Ele sabe o que é melhor. A vida verdadeira é a Eterna, não é esta. Só Deus sabe se o nosso sofrimento vai ser mais proveitoso para salvar almas do que a nossa cura.

Como superar este “não”? Com muita oração, sobretudo nos momentos de queda e de desespero, e com a entrega diária das nossas dores. Apelo a todos para a importância da oração: muitos dos que sofrem horrores, só conseguem aguentar graças à oração de intercessão. Por isso mesmo não podemos orar apenas pelos nossos problemas, mas também pelos dos outros irmãos.

 

 

 

quarta-feira, janeiro 07, 2026

 

Jesus passa, mas não O chamamos

 


No Evangelho de hoje (Mc 6, 45-52), Jesus passa pelo barco dos discípulos. Estão apavorados, mas não conseguem vê-Lo no primeiro instante. O medo e a fé imatura impedem-nos de sentir confiança em Deus. É curioso, porque tinham acabado de ver Jesus a multiplicar os pães e os peixes. Como não conseguiram acreditar que Jesus os podia salvar?

É fácil para nós olharmos e apontarmos o dedo aos discípulos. Mas não fazemos nós também o mesmo? Quantas vezes já tivemos milagres e mesmo assim desesperamos? O barco da vida navega muitas vezes em alto mar, em plena tempestade. Há momentos muito duros e qualquer um – sem exceção – pode fazer o mesmo: desesperar, não pedir ajuda a Deus e deixá-Lo passar ao lado… Ou então vemo-Lo já muito tarde, restando-nos remediar a situação com a Sua graça.

Esta passagem da Bíblia também nos deve fazer refletir sobre a atitude de Jesus: Ele passa ao lado do barco, mas não faz nada. Só vai ter com os discípulos quando eles O veem e O chamam. Porquê? Jesus não nos força a nada. O verdadeiro amor é assim: não é impingido. O Amor não pode ser de outra forma. Jesus está sempre disponível, mas se não O quisermos…

Querer e amar Jesus não é algo que se consiga num clique. É preciso caminhar, ler e meditar a Palavra – com a ajuda de quem sabe – e orar sem cessar. Orar com palavras, no silêncio, na contemplação, na ação… É preciso treinar todos os dias e pedir-Lhe a graça da oração contínua. Oração pode ser um simples olhar para uma imagem ou um pensamento em Jesus. Pode ser uma simples palavra dita em silêncio, no meio da multidão. 

E nunca se pode parar. Mesmo que haja quedas, temos que nos levantar e voltar à oração de coração, “em espírito e verdade” (Jo 4, 24). Uma pessoa pode andar anos a fio no ginásio a praticar musculação, mas basta parar por pouco tempo e os músculos vão diminuir… Na vida espiritual é a mesma coisa. 

Entremos no ‘ginásio’ de Deus para que vejamos Jesus em todos os momentos da vida, quer sejam bons ou maus. Vamos ter mais força e Jesus vai ficar mais feliz!



quinta-feira, janeiro 01, 2026

 

A última cartada de Deus no deserto…

 


Há objetivos na vida que são tão preciosos aos olhos de Deus que Ele se recusa a dar-no-los à primeira. Sabendo como falhamos facilmente e como adoramos falsas sensações e metas, prefere atrair-nos ao deserto para nos falar ao coração. (Os 2, 16)

E isso pode levar anos… Veja-se o exemplo de José, vendido como escravo pelos irmãos e vítima de grande injustiça, que só após décadas conseguiu perceber qual era a sua missão. 

Ao longo desses anos, Deus pede-nos a humildade de aceitarmos ir com Ele ao deserto, onde muitas vezes vamos escutar apenas silêncio. Vamos orar, chorar e a resposta de Deus será … silêncio. A revolta vai instalar-se, a confusão vai ser cada vez maior, assim como o sentimento de injustiça, mas Deus continuará sem falar…

É aqui que se prova a maturidade da nossa fé. Diria mesmo que é neste deserto que Ele nos ajuda a perceber se estamos com Ele para O amar ou apenas para ter algo em troca.

Se não desistirmos, mesmo sem nada entender, eis o que acontece:

- Deus vai refazer-nos e vamos ver quais as feridas e as imperfeições que devem ser curadas. Será a hora de aceitar também que ainda continuamos com alguns ‘pecados de estimação’ apenas porque não temos vontade de nos desafazermos deles. São demasiado prazerosos…

- No deserto vamos aprender o que é orar. A oração não é apenas palavras e cânticos maravilhosos, mas também lágrimas e silêncio. Um silêncio que chega a doer até aos ossos…

- E, mais importante que tudo, vamos entender o Amor infinito que Deus tem por cada um de nós e como é Ele que deve ser o centro das nossas vidas. Por melhor que seja uma pessoa ou uma profissão, tudo passa. Apenas fica Deus. 


Durante a experiência do deserto pode acontecer que Ele fale e que nos dê sinais da Sua Vontade. Isso é percetível pela paz que se sente no coração e que pode até ser racionalmente estúpida. Nestes momentos, os sinais de Deus contradizem tudo o que vemos à nossa volta. Mas Ele insiste que é possível.

O tempo passa e, quando menos esperamos, Ele lança a Sua última cartada. E nesse momento, o deserto torna-se num oásis e aquilo que parecia impossível torna-se realidade. Porquê? Porque as grandes obras de Deus parecem sempre impossíveis e começam sempre aos pés da cruz. É desta forma que mostra a todos que a obra é Dele e que irá salvar muitos filhos…